O Dicastério para a Doutrina da Fé publicou, em 22 de outubro de 2026, o documento Venite ad Me: Considerations on the Transmission of the Faith in an Epochal Change. A reflexão parte de um desafio pastoral concreto: como comunicar a fé católica em uma época marcada por mudanças culturais aceleradas, secularização e enfraquecimento dos vínculos comunitários.
Em vez de apresentar apenas uma análise sobre a perda de referências religiosas, o texto propõe caminhos para renovar a ação evangelizadora da Igreja. O eixo principal é o querigma, entendido como o primeiro anúncio do Evangelho e da mensagem de que Jesus Cristo ama, salva e acompanha cada pessoa. A proposta busca recuperar o núcleo essencial da fé antes de avançar para outras etapas da formação cristã.
Segundo a reportagem do Vatican News, o documento foi aprovado pelo Papa Leão XIV em 21 de agosto de 2026 e divulgado pelo dicastério dois meses depois. A publicação coloca a transmissão da fé no centro da reflexão pastoral e procura responder às dificuldades enfrentadas por paróquias, famílias e comunidades cristãs.
O que é o querigma e por que ele ganha destaque
Na perspectiva apresentada pelo documento, o querigma corresponde ao anúncio inicial que conduz a pessoa ao encontro com Jesus Cristo. Não se trata apenas de transmitir informações religiosas ou de apresentar normas de comportamento, mas de comunicar o núcleo da mensagem cristã de forma compreensível, próxima e capaz de alcançar a experiência concreta de cada pessoa.
A centralidade desse anúncio indica uma preocupação com os caminhos pelos quais crianças, jovens e adultos entram em contato com a Igreja. Em contextos nos quais a fé já não é recebida automaticamente dentro da família ou da comunidade, a evangelização precisa encontrar linguagens e relações que favoreçam a escuta, o diálogo e a abertura ao Evangelho.
O documento também defende uma atenção maior à evangelização de adultos. A catequese de crianças e adolescentes continua sendo considerada necessária, mas a Igreja é chamada a reconhecer que muitos adultos precisam de oportunidades próprias para conhecer ou reencontrar a fé. Essa realidade inclui tanto pessoas que nunca foram integradas à vida eclesial quanto aquelas que receberam o batismo e depois se afastaram.
Acompanhamento depois do batismo e do retorno à Igreja
Um dos pontos destacados na reflexão é a necessidade de acompanhar melhor quem retorna à Igreja ou recebe o batismo, mas acaba se distanciando posteriormente. A transmissão da fé, nesse sentido, não deve ser compreendida como uma ação pontual, limitada a uma celebração, a um curso ou a uma etapa da catequese.
O desafio pastoral envolve criar condições para que a pessoa encontre acolhimento, vínculos e possibilidades de participação. O acompanhamento posterior aparece como parte importante desse processo, especialmente em uma sociedade na qual as relações comunitárias se tornaram mais frágeis e a pertença religiosa deixou de ser uma experiência comum para muitas famílias.
Para as paróquias, a proposta reforça a importância de observar o que acontece antes e depois dos momentos sacramentais. A preparação continua relevante, mas precisa estar ligada a uma caminhada mais ampla, na qual a pessoa possa ser escutada, compreender a fé e descobrir formas concretas de viver em comunidade.
Paróquias, famílias e linguagem da fé
O documento ressalta o papel das comunidades paroquiais na transmissão da fé. A paróquia é apresentada como espaço de encontro, celebração, formação e testemunho, mas sua missão depende da capacidade de acolher pessoas em diferentes momentos da vida. A comunidade cristã é chamada a unir a Palavra de Deus, a liturgia e o testemunho dos fiéis.
Essa integração evita que a evangelização seja reduzida a discursos isolados. A fé é comunicada pela proclamação do Evangelho, pela participação na liturgia e também pela forma como os cristãos vivem, servem e estabelecem relações. Por isso, o testemunho cotidiano aparece como elemento inseparável da transmissão da mensagem cristã.
A linguagem também ocupa lugar importante na proposta. Comunicar a fé de maneira próxima não significa alterar seu conteúdo, mas buscar formas que sejam compreensíveis para as pessoas de hoje. Para famílias e agentes pastorais, isso representa o desafio de falar sobre Jesus, a Igreja e a vida cristã sem pressupor que todos compartilhem o mesmo vocabulário religioso ou a mesma experiência comunitária.
Uma tarefa para diferentes gerações
A publicação do Venite ad Me amplia a discussão sobre a responsabilidade de transmitir a fé entre gerações. Crianças e adolescentes precisam de formação, mas os adultos também necessitam de espaços de escuta, aprofundamento e recomeço. A resposta pastoral proposta não abandona a catequese tradicional, mas procura articulá-la com o primeiro anúncio e com o acompanhamento contínuo.
A seção de notícias da Igreja do Vatican News acompanha as iniciativas e reflexões recentes relacionadas à vida e à missão da Igreja Católica. Nesse contexto, o novo documento oferece às comunidades um ponto de referência para avaliar como acolhem, formam e acompanham seus membros.
Mais do que propor uma fórmula única, a reflexão do Dicastério para a Doutrina da Fé chama a atenção para uma prioridade: renovar a transmissão da fé a partir do anúncio de Cristo, da vida comunitária e de relações pastorais capazes de acompanhar as pessoas ao longo do caminho. Para a Igreja, o desafio é fazer com que esse anúncio alcance as novas gerações sem perder sua centralidade e sua ligação com a vida concreta.