Para o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a doença de Parkinson é uma das condições neurológicas mais frequentemente subdiagnosticadas na terceira idade, não porque seja rara, mas porque suas manifestações iniciais são facilmente confundidas com envelhecimento normal ou com outras condições igualmente prevalentes no idoso. Quando o diagnóstico finalmente é feito, frequentemente já se passaram anos desde os primeiros sinais, e o paciente já perdeu uma janela importante de intervenção que poderia ter preservado mais função por mais tempo.
Aqui, você vai descobrir o que está por trás dessa doença, o que ela causa além do tremor que todo mundo conhece e o que pode ser feito desde os primeiros sinais para preservar mais a função por mais tempo.
O que é a doença de Parkinson e o que acontece no cérebro?
A doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa causada pela perda progressiva de neurônios dopaminérgicos na substância negra, região cerebral responsável pela produção de dopamina, neurotransmissor essencial para o controle do movimento. Quando a concentração de dopamina cai abaixo de um limiar crítico, os sinais motores característicos da doença começam a se manifestar. No entanto, o processo degenerativo se inicia anos ou décadas antes, afetando outras regiões cerebrais e produzindo sintomas não motores que frequentemente precedem o tremor em muito tempo.
Como detalha Yuri Silva Portela, a perda de neurônios dopaminérgicos não é o único processo em curso no Parkinson. A proteína alfa-sinucleína, que se acumula de forma anormal no cérebro dos pacientes com essa doença, afeta progressivamente múltiplas regiões cerebrais além da substância negra, comprometendo o olfato, o sistema digestivo, o sono e o humor muito antes de qualquer sintoma motor se tornar visível. Essa disseminação precoce explica por que o Parkinson é muito mais do que uma doença do movimento.
O que o Parkinson causa além do tremor?
O tremor em repouso, o sintoma mais conhecido da doença de Parkinson, é frequentemente o que leva o paciente ao médico, mas raramente é o primeiro sintoma a aparecer. Anos antes do tremor, muitos pacientes com Parkinson apresentam perda do olfato sem causa aparente, constipação intestinal crônica que não responde a tratamentos convencionais, comportamento de encenação de sonhos durante o sono REM, em que o paciente age fisicamente os conteúdos dos sonhos, e depressão ou ansiedade que parecem desproporcionais às circunstâncias de vida.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, reconhecer esses sinais pré-motores como possíveis manifestações precoces do Parkinson tem implicações clínicas reais. O idoso que perdeu o olfato há cinco anos, que tem constipação crônica e que recentemente começou a se debater durante o sono está apresentando uma constelação de sintomas que justifica avaliação neurológica específica, mesmo na ausência de qualquer sintoma motor. Por isso, identificar a doença nessa fase permite intervenções que preservam a qualidade de vida por muito mais tempo do que o diagnóstico tardio permitiria.
Por que o diagnóstico demora tanto e o que o atrasa?
O diagnóstico da doença de Parkinson é clínico, baseado na observação dos sinais e sintomas pelo médico, pois não existe exame de sangue ou de imagem que confirme a doença de forma definitiva nas fases iniciais. Essa ausência de biomarcador objetivo faz com que o diagnóstico dependa da experiência e da atenção clínica do profissional que avalia o paciente. Além disso, sintomas iniciais como lentidão de movimentos, redução da expressão facial e voz mais baixa são frequentemente atribuídos ao envelhecimento normal, ao hipotireoidismo ou à depressão, retardando o encaminhamento neurológico por meses ou anos.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, o tremor, quando presente, é o sinal que geralmente acelera o diagnóstico, mas cerca de 30% dos pacientes com Parkinson não apresentam tremor proeminente, tornando o diagnóstico ainda mais difícil nesses casos. A forma acinético-rígida da doença, em que predominam a lentidão e a rigidez sem tremor evidente, é a mais frequentemente diagnosticada com atraso e a que mais se beneficia do reconhecimento precoce por parte de familiares atentos.
O que pode ser feito desde os primeiros sinais?
O tratamento da doença de Parkinson não cura a doença nem reverte o dano neurológico já ocorrido, mas é altamente eficaz no controle dos sintomas e na preservação da qualidade de vida quando iniciado precocemente. A levodopa, o medicamento mais eficaz disponível, repõe a dopamina que o cérebro não consegue mais produzir em quantidade suficiente, restaurando a mobilidade e reduzindo o tremor de forma expressiva na maioria dos pacientes.
Yuri Silva Portela conclui que, além do tratamento farmacológico, a fisioterapia, a fonoaudiologia e a terapia ocupacional têm papel documentado na manutenção da função motora, da fala e da autonomia nas atividades cotidianas, e deveriam ser iniciadas logo após o diagnóstico, antes que o declínio funcional se instale, de forma que limitaria o benefício dessas intervenções. O Parkinson diagnosticado cedo é um Parkinson com muito mais possibilidades de ser vivido com dignidade e qualidade.