Por anos, a decoração valorizou a superfície perfeita, com laminados e porcelanatos que imitavam madeira e pedra sem entregar a textura real. Hoje o mercado busca o oposto: materiais naturais como madeira maciça, pedra bruta, linho e argila voltam a ocupar o centro dos projetos, valorizados justamente pela imperfeição que prova que são reais.
Para Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, essa virada não é só estética. Ela reflete uma mudança na relação das pessoas com os ambientes onde vivem, que passaram a valorizar o que se sente ao tocar e não só o que aparece bem na foto, num movimento que também aparece nos pedidos de reforma que chegam aos projetos.
Por que o material sintético perdeu espaço?
O laminado e o porcelanato que imitam madeira ou pedra dominaram por décadas porque resolviam um problema prático: custo mais baixo, manutenção simples e resistência a arranhões. Esses materiais continuam presentes em muitos projetos, sobretudo em áreas de alto tráfego, como corredores e cozinhas de uso intenso, onde a resistência do revestimento importa mais do que a textura que ele entrega.
O que mudou foi a disposição de quem projeta em misturar essas soluções práticas com peças de material natural em pontos estratégicos, como uma bancada de madeira maciça, um piso de pedra na entrada ou uma parede revestida de argila. O resultado combina durabilidade nos pontos de desgaste com autenticidade nos pontos de contato visual e tátil mais direto, sem exigir que a obra inteira seja feita só com material bruto, o que encareceria o projeto sem necessidade.
Materiais naturais mudam a sensação do ambiente
Daugliesi Giacomasi Souza indica que a textura irregular da madeira, o relevo da pedra bruta ou a superfície porosa da argila mudam a forma como o corpo percebe o espaço, muito além do que qualquer imagem consegue transmitir. Passar a mão numa bancada de granito não polido cria uma relação com o ambiente que a superfície uniforme não oferece.

A percepção também muda com a luz, porque materiais naturais reagem de forma diferente conforme a hora do dia. A irregularidade da superfície cria sombra e reflexo variáveis, sentidos até na variação de tom entre duas tábuas de madeira maciça, enquanto o material sintético mantém a mesma aparência plana o dia inteiro.
Durabilidade real ou apenas estética?
Nem todo material natural envelhece bem sem cuidado. Madeira maciça pode rachar sem o acabamento certo, pedra porosa mancha se não for selada, e linho amassa e desbota mais rápido que fibra sintética se exposta diretamente ao sol. Selar a pedra antes de instalar, escolher o acabamento certo para a umidade do ambiente e prever manutenção periódica ajudam a evitar boa parte desses problemas.
Daugliesi Giacomasi Souza considera que a escolha do material natural precisa vir acompanhada da especificação técnica correta para o uso do ambiente, e não apenas da estética que ele entrega no dia da entrega da obra. Um material bem especificado envelhece de um jeito que soma valor ao espaço, enquanto o mesmo material mal indicado se deteriora rápido e frustra quem investiu nele.
Uma decoração que envelhece sem perder identidade
Diferente do laminado, que troca de aparência assim que risca ou descasca, o material natural muda de aspecto sem deixar de cumprir sua função. Essa mudança costuma ser lida como parte do caráter do ambiente, não como defeito, e é isso que faz um piso de madeira antigo parecer mais valioso do que um piso novo de material sintético.
O argumento central por trás da preferência crescente por madeira, pedra e fibra natural nos projetos atuais, segundo Daugliesi Giacomasi Souza, está nessa troca de expectativa: a decoração deixa de buscar a superfície que nunca muda e passa a valorizar o material que envelhece de um jeito que continua bonito, mesmo depois de anos de uso diário.