Conforme contextualiza Cristiane Ruon dos Santos, colecionadora de objetos antigos, o mercado de segunda mão chama atenção pelos números. O Brasil soma mais de 118 mil brechós ativos, e a projeção do Sebrae indicava que o setor movimentaria R$ 24 bilhões em 2025. O brechó, antes associado apenas à economia forçada, passou a ocupar espaço central no consumo de moda, impulsionado por uma combinação de fatores econômicos, ambientais e culturais.
O que mudou no consumo de moda de segunda mão?
O crescimento não é recente, mas acelerou. Entre 2024 e 2025, o número de estabelecimentos do segmento aumentou 32%, e mais de 2.500 novas empresas foram abertas em 2026. Somente no estado de São Paulo, o Sebrae-SP contabiliza 7.348 pequenos negócios de varejo de usados, dos quais 71% são microempreendedores individuais.
A presença das peças usadas no guarda-roupa também cresceu. Estudo do Boston Consulting Group estimou que roupas seminovas representavam 12% do guarda-roupa dos brasileiros, com tendência de chegar a 20%. A mudança indica que comprar de segunda mão deixou de ser exceção e virou hábito para parte relevante dos consumidores. Em um movimento que dialoga com o universo de Cristiane Ruon dos Santos, roupas que antes seguiam para doação ou lixo agora circulam por mais tempo, passando por dois, três ou mais donos antes de chegar ao fim de sua vida útil.
Economia e sustentabilidade impulsionam a moda circular
O bolso segue como motivo principal. Pesquisa do Sebrae-SP mostra que 71% dos consumidores apontam a economia como razão para comprar em brechós. Em um cenário de orçamento apertado, a possibilidade de adquirir peças de boa qualidade por uma fração do preço original pesa na decisão. O gasto médio por visita, entre R$ 50 e R$ 100 segundo o mesmo levantamento, mostra que o segmento atende a compras frequentes e de valor acessível.

A preocupação ambiental vem logo atrás. Segundo a Fundação Ellen MacArthur, menos de 1% dos materiais usados na produção de roupas é reciclado. Diante desse quadro, a moda circular, que prolonga a vida útil das peças por meio de revenda, troca e reaproveitamento, surge como resposta prática ao volume de tecido descartado. Para quem, como Cristiane Ruon dos Santos, acompanha o valor de objetos que atravessam gerações, a lógica de reaproveitar em vez de descartar soa familiar.
A curadoria transformou a imagem dos brechós
Parte da virada se explica pela mudança no próprio negócio. Muitos brechós deixaram de vender apenas roupas usadas e passaram a trabalhar com marcas premium, itens vintage e coleções exclusivas. A seleção cuidadosa das peças atraiu um público que antes não frequentava o segmento. Ambientes organizados, vitrines cuidadas e presença ativa nas redes sociais aproximaram o brechó da experiência de uma loja convencional, afastando o estigma de lugar desarrumado e de peças sem qualidade.
As novas gerações reforçam o movimento. Globalmente, 40% dos consumidores da Geração Z recorrem a brechós ou canais de revenda para encontrar o que procuram. Ainda assim, a loja física segue forte no Brasil: 84% dos consumidores ouvidos pelo Sebrae-SP preferem comprar presencialmente, contra 40% que citam os brechós on-line. A preferência se explica pela possibilidade de tocar o tecido, provar a roupa e avaliar o estado de conservação antes de pagar.
O que o crescimento exige de quem compra?
A expansão do mercado traz também uma variedade maior de qualidade e de preços. Nem todo brechó faz curadoria, e peças com defeitos, tamanhos mal indicados ou rótulos imprecisos continuam comuns. Examinar costuras, forros, zíperes e manchas antes da compra evita frustração. Em roupas de tecido natural, vale também verificar sinais de traça e desbotamento, comuns em peças que ficaram muito tempo guardadas.
Outro cuidado é entender o que está sendo vendido. Para Cristiane Ruon dos Santos, a diferença entre uma peça de época e um item seminovo é essencial, e o consumidor ganha ao fazer a mesma distinção. Perguntar a procedência, a década de fabricação e o estado de conservação ajuda a pagar um preço justo e a escolher roupas que realmente vão durar.