Três organismos da Cúria Romana publicaram, em 16 de setembro de 2026, uma nota dedicada ao futuro do diálogo inter-religioso e à atualidade da declaração Nostra Aetate. Intitulado “Um Caminho de Esperança: Sessenta anos de diálogo e fraternidade inter-religiosa à luz da Declaração conciliar Nostra Aetate”, o documento foi elaborado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, pelo Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos e pelo Dicastério para o Diálogo Inter-religioso.
A publicação retoma o percurso aberto pelo Concílio Vaticano II e apresenta o diálogo entre religiões como uma dimensão importante da missão da Igreja. Segundo a análise publicada pelo Vatican News, a iniciativa também responde a um cenário marcado por conflitos, polarização e manifestações de hostilidade contra comunidades religiosas.
O que é a Nostra Aetate
A declaração Nostra Aetate foi aprovada em 28 de outubro de 1965, durante o Concílio Vaticano II. O texto representou uma mudança significativa na forma como a Igreja Católica passou a abordar sua relação com os judeus e com os fiéis de outras religiões, abrindo espaço para maior aproximação, respeito e cooperação.
Ao recuperar esse legado, a nova nota não trata a declaração apenas como um registro histórico. O documento procura mostrar que seus princípios permanecem relevantes diante dos desafios atuais. A proposta é atualizar o compromisso católico com a fraternidade humana e com a convivência entre pessoas de diferentes tradições, sem abandonar a identidade própria da fé cristã.
A referência aos “sessenta anos” exige, contudo, uma observação cronológica. Como a Nostra Aetate foi aprovada em 28 de outubro de 1965, seu 60º aniversário ocorreu em 28 de outubro de 2025. Assim, a divulgação da nota em setembro de 2026 deve ser compreendida como uma retomada e uma atualização de seu legado, e não como a data exata da celebração do aniversário.
Combate ao extremismo e à perseguição religiosa
Entre os problemas destacados na pauta estão o crescimento do extremismo, a perseguição religiosa, o antissemitismo, a islamofobia e o uso indevido do nome de Deus para justificar a violência. A nota situa esses fenômenos entre os obstáculos que dificultam a convivência pacífica e enfraquecem a liberdade religiosa.
O posicionamento do Vaticano reforça que a religião não deve ser instrumentalizada para alimentar o ódio ou legitimar agressões. Nesse contexto, o diálogo inter-religioso aparece como um caminho para reconhecer a dignidade das pessoas, enfrentar preconceitos e construir relações baseadas na escuta e no respeito. A iniciativa também alcança comunidades judaicas, muçulmanas e seguidores de outras tradições religiosas.
A abordagem apresentada pelos dicastérios relaciona o diálogo à construção da paz em sociedades culturalmente diversas. Em vez de limitar o contato entre religiões a encontros formais ou a uma estratégia diplomática, a nota o apresenta como uma atitude coerente com a missão cristã e com a busca pela fraternidade.
Uma orientação para a Igreja no presente
O documento divulgado pela Santa Sé procura oferecer uma referência para a atuação católica em um mundo atravessado por tensões religiosas e culturais. A defesa da liberdade de crença, o repúdio à perseguição e a rejeição dos discursos de ódio aparecem como elementos ligados à responsabilidade das comunidades religiosas diante da sociedade.
Essa perspectiva exige preservar a identidade de cada tradição sem transformar as diferenças em motivo de hostilidade. Para a Igreja Católica, o diálogo não significa apagar convicções próprias, mas criar condições para que diferentes grupos possam conviver, cooperar e buscar respostas para problemas que afetam a vida comum.
O tema também foi abordado em entrevista do Vatican News com o cardeal George Jacob Koovakad. A conversa integra a divulgação da nota e amplia a reflexão sobre o significado do diálogo inter-religioso no atual contexto da Igreja e do mundo.
Ao retomar a Nostra Aetate, o Vaticano reafirma que a aproximação entre religiões continua sendo uma tarefa necessária. A nota publicada pelos três dicastérios vincula esse compromisso à prevenção da violência, à proteção da liberdade religiosa e à construção de uma cultura de paz, especialmente em sociedades marcadas pela diversidade.
Fontes da matéria
Foram consultados o texto oficial da nota, publicado pela Santa Sé, a análise do Vatican News e a entrevista com o cardeal George Jacob Koovakad publicada pelo mesmo veículo.